quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Fortificações islâmicas no al-Andalus: tipologias

      Quando hoje se olha para as fortificações medievais espalhadas pelo nosso país, geralmente relacionamos a sua construção com o período a partir da fundação do Reino de Portugal, e com as lutas contra os mouros em ambiente de Reconquista. Como é matéria pouco estudada, e os poucos (e excelentes) estudos publicados por cá são somente conhecidos nos meios académicos[1], as pessoas tendem a relacionar os chamados castelos com as Ordens Militares e os senhores feudais, ignorando que na maioria dos casos, a sua origem é islâmica.
     No que se refere ao território português, a esmagadora maioria das fortificações de Coimbra para Sul têm essa origem,  que ligadas ao fenómeno do povoamento do territorio, acabaram por influenciar a toponimia a que dou como exemplos Alvorge e Alcácer do Sal. Também não esqueçamos as Atalaias e as Arrabidas em abundância no nosso território.
     Para quem não é especialista, a sentença é clara: são castelos, independentemente da sua configuração e volumetria. Por isso, vou tentar explicar de forma sucinta as várias tipologias das fortificações islâmicas no al-Andalus[2]:

Hisn حصن – Trata-se de uma fortificação de grande volumetria, aquela que mais vezes é identificada como castelo. Constitui-se por uma área de reduto defensivo mínimo (celoquia), uma área habitável (alvacar) que em caso de ataque, abrigava as populações e o gado das alcarias limítrofes, e por uma zona habitável que poderia ser delimitada ou não por uma muralha. Para além das funções militares, este tipo de fortificação tinha também funções meramente fiscais.

Q’ala قلعة – Fortificação de maior dimensão e complexidade, quase sempre protegendo um núcleo urbano. Apesar de ser uma fortificação urbana, não tem as mesmas características da madina fortificada, pelo facto de ser mais pequena e militarizada.

Burj برج – Pequena fortificação em forma de torre com um numero reduzido de efectivos.

Ma’quil بمعاقل – Fortificação de dimensões reduzidas para protecção de pessoas e gado de uma alçaria.

Atalaia الُطَّلائع (at-Talayah) – Torre fortificada para fins de vigilância e alerta antecipado nas orlas marítimas.

Ribat رِبات Quartel fortificado que abrigava soldados devotos e com a jihad como motivação. Podemos afirmar que era o equivalente aos castelos das ordens militares cristãs e as guarnições respectivas de monges-soldados. Arrábida é uma corruptela desta palavra árabe.

Alcáçova القَصْبة (al-qasba) Fortificação inserida numa estrutura de maiores dimensões onde abrigava as estruturas de poder; Ultimo reduto de uma fortificação. (Ex. Castelo de S. Jorge, Lisboa)

Qasr قَصر  – Fortificação palatina. Alcácer deriva desta palavra árabe na forma definida (al-qasr)





[1] Nesta matéria, aconselhamos os trabalhos de Cláudio Torres, Fernando Branco Correia e Helena Catarino. Nos meios académicos espanhóis, aconselhamos os trabalhos de Manuel Acién Almansa.

[2] Como a tipologia é designada em árabe, por uma questão pratica optei pelas entradas no singular, desprezando os plurais que são radicalmente diferentes (Regra difícil na língua árabe por esta ter vários paradigmas)

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O al-Andalus الاندلس



     Embora em tempos muito esquecida pela nossa historiografia, a presença árabe-islamica na Península Ibérica foi mais marcante do que pensamos. Novos estudos e abordagens do tema pela historiografia espanhola, revelaram (e têm revelado) o quanto essa marca influênciou em muitos aspectos a vida dos povos da Península.
     A historiografia nacionalista abordou a presença islâmica de uma forma maniqueísta, em que os cristãos eram os libertadores e os “árabes”, os invasores e opressores. Estudos sérios têm posto por terra essa teoria, revelando-nos afinal um al-Andalus tolerante, culturalmente evoluído, e integrador dos autóctones na sua sociedade. Mas é um facto, que nem sempre assim foi, porque houve alturas em que deparamos com intolerância e sectarismo religioso.
     Um dos objectivos deste blogue é transmitir e partilhar alguns conhecimentos[1] desta matéria com o leitor. Tenho como objectivo neste blogue despertar o gosto por este tema a quem pouco ou nada se interessa, ou até por especialistas a que agradeço que acrescentem ou corrigem alguma coisa menos correcta.
     Como por vezes a Historia de Portugal começa a ser contada a partir de D. Afonso Henriques, e o que se fala da cultura islâmica é nesse contexto, vamos focar-nos também em temas que abordem a presença no Gharb al-Andalus, o território que em grande percentagem coincide com o actual Portugal. Não se compreende também a nossa Historia sem percebermos esta questão, porque esta civilização tambem teve uma marca importante na formação do reino de Portugal, como falaremos ao longo deste blogue.

Espero que gostemِ


[1] Embora ainda tenha um longo caminho a percorrer

Bem vindos a este blogue




     Neste blogue pretende-se escrever sobre a civilização islâmica mediterrânica e  medieval, moderna e até contemporânea, e a sua influência politica, científica e cultural na civilização ocidental, porque nisto não há compartimentos estanques. Muitas vezes, o homem de hoje tende a olhar para o mundo árabe contemporâneo com visão anacrónica, o que é injusto. Não se pretende branquear o papel que o Islão teve na História, mas sim fazer uma análise de caracter historiográfico e nada mais. Não se compreende o que é o mundo islâmico sem perceber a sua historia, porque aí estão as respostas às perguntas que nos são colocadas hoje pelos acontecimentos da actualidade.  Muitas vezes, os preconceitos de tipo civilizacional e religioso fazem com que estas respostas sejam deturpadas ou metidas na gaveta das conveniencias de momento, criando assim mal-entendidos nos dois  lados da "barricada".