Quando hoje se olha
para as fortificações medievais espalhadas pelo nosso país, geralmente
relacionamos a sua construção com o período a partir da fundação do Reino de
Portugal, e com as lutas contra os mouros em ambiente de Reconquista.
Como é matéria pouco estudada, e os poucos (e excelentes) estudos
publicados por cá são somente conhecidos nos meios académicos[1], as
pessoas tendem a relacionar os chamados castelos com as Ordens Militares e os
senhores feudais, ignorando que na maioria dos casos, a sua origem é islâmica.
No que se refere
ao território português, a esmagadora maioria das fortificações de Coimbra para
Sul têm essa origem, que ligadas ao fenómeno do povoamento
do territorio, acabaram por influenciar a toponimia a que dou como exemplos Alvorge e Alcácer do Sal. Também não
esqueçamos as Atalaias e as Arrabidas em abundância no nosso território.
Para quem não é
especialista, a sentença é clara: são
castelos, independentemente da sua configuração e volumetria. Por isso, vou
tentar explicar de forma sucinta as várias tipologias das fortificações
islâmicas no al-Andalus[2]:
Hisn حصن – Trata-se de uma fortificação de grande volumetria,
aquela que mais vezes é identificada como castelo. Constitui-se por uma área de
reduto defensivo mínimo (celoquia), uma área habitável (alvacar) que em caso de
ataque, abrigava as populações e o gado das alcarias limítrofes, e por uma zona
habitável que poderia ser delimitada ou não por uma muralha. Para além das funções
militares, este tipo de fortificação tinha também funções meramente fiscais.
Q’ala قلعة – Fortificação de maior dimensão e complexidade, quase
sempre protegendo um núcleo urbano. Apesar de ser uma fortificação urbana, não
tem as mesmas características da madina fortificada, pelo facto de ser
mais pequena e militarizada.
Burj برج – Pequena fortificação em forma de torre com um numero
reduzido de efectivos.
Ma’quil بمعاقل – Fortificação de dimensões reduzidas para protecção de
pessoas e gado de uma alçaria.
Atalaia الُطَّلائع
(at-Talayah) – Torre fortificada para fins de vigilância e alerta antecipado
nas orlas marítimas.
Ribat رِبات – Quartel
fortificado que abrigava soldados devotos e com a jihad como motivação. Podemos
afirmar que era o equivalente aos castelos das ordens militares cristãs e as
guarnições respectivas de monges-soldados. Arrábida é uma corruptela desta
palavra árabe.
Alcáçova القَصْبة (al-qasba) – Fortificação
inserida numa estrutura de maiores dimensões onde abrigava as estruturas de
poder; Ultimo reduto de uma fortificação. (Ex. Castelo de S. Jorge, Lisboa)
Qasr قَصر – Fortificação palatina. Alcácer deriva desta
palavra árabe na forma definida (al-qasr)
[1] Nesta
matéria, aconselhamos os trabalhos de Cláudio Torres, Fernando Branco Correia e Helena Catarino.
Nos meios académicos espanhóis, aconselhamos os trabalhos de Manuel Acién
Almansa.
[2] Como a tipologia é
designada em árabe, por uma questão pratica optei pelas entradas no singular,
desprezando os plurais que são radicalmente diferentes (Regra difícil na língua
árabe por esta ter vários paradigmas)
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